Vivo e trabalho em Espanha há mais de dez anos. Não saí de casa por vontade própria – precisava de educar o meu filho, dar-lhe uma boa educação e ajudá-lo a reerguer-se.
Orgulho-me do que conquistei ao longo destes anos. O meu filho Mikhail formou-se numa universidade de prestígio, conseguiu um emprego numa empresa de TI de renome e, recentemente, ajudei-o a comprar um carro e contribuí com uma quantia significativa para o seu casamento. Agora é independente e está a lidar bem com a vida.
Diz-me sempre:
– Mãe, pare de trabalhar logo! Volte para casa, merece uma folga.
Mas não posso. O que me espera lá atrás? Não, quero poupar para uma velhice tranquila, fazer umas boas remodelações, quem sabe até abrir um pequeno negócio. E já me habituei à Espanha.
Este inverno, decidi voltar a casa no Natal. O Mikhail encontrou-me na estação com a sua esposa, Katya. Para ser sincero, ainda não consegui encontrar um ponto em comum com ela.
Parece ser uma miúda simpática: de uma família simples, não é mimada, mas comporta-se como uma rainha. O seu olhar e tom condescendentes irritam-me sempre um pouco.
Para o feriado, preparei tudo como fazíamos em família. Trouxe iguarias caras de Espanha para que pudessem experimentar algo novo. Apesar do cansaço de um voo de 12 horas, comecei logo a trabalhar na cozinha, comecei a limpar e até reorganizei os móveis.

Quando nos sentámos à mesa, decidi finalmente fazer a pergunta que há muito me incomodava:
– Katya, tu e o Mikhail planeiam ter filhos? Quero muito ter netos para cuidar enquanto ainda tenho energia.
Katya olhou para cima e, com um leve sorriso, disse:
– Gostaria de nos comprar um apartamento?
Fiquei paralisado, sem acreditar no que ouvia.
– O que disse? – perguntei baixinho.
– Tudo o que ouviu – respondeu ela calmamente. – Estamos apertados num apartamento alugado. Talvez seja melhor ajudar-nos com a habitação em vez de perguntar pelos netos?
Não me consegui conter.
– Achas mesmo que eu devia trabalhar mais dez anos para te comprar um apartamento? Mikhail, já não fiz o suficiente por ti?
Katya não recuou:
– Bem, está a dar-se muito bem em Espanha. Está acostumado a trabalhar.
– Sim, já estou habituada! Mas agora trabalho para mim, não para ti – respondi bruscamente.
Mikhail interveio:
– Mãe, Katya, chega! É Natal, não é tempo de quezílias.

Mas o ambiente de festa foi arruinado. A Katya foi dramaticamente para outra sala, batendo com a porta, e eu fiquei sentado à mesa, sentindo-me completamente exausto.
– Então, como vamos avançar? – perguntei baixinho ao meu filho.
Nessa noite, não consegui dormir. Os pensamentos não paravam de rondar a minha cabeça: Para quem vivi todos estes anos? Porque é que, depois de tudo o que fiz, estou a ouvir estas palavras?
Talvez seja verdade, devia voltar para Espanha e trabalhar por conta própria. Deixar que vivam como quiserem.