Bolo, caos e uma noiva furiosa: o casamento torna-se um caos.

Alyona estava em frente ao espelho no quarto de hotel, a ajeitar as dobras do vestido de noiva, sentindo um aperto familiar na garganta. O vestido era realmente lindo — de seda, com delicados detalhes em renda e suaves folhos na saia. Não tinha sido barato para ela e para Sasha, mas Alyona estava confiante na sua escolha. Isto até ouvir a opinião da sua futura sogra.

“Vulgar”, tinha disparado Valentina Grigoryevna uma semana antes, quando lhe vieram mostrar o vestido. Olhou Alyona de cima a baixo como se estivesse a avaliar produtos de mercado. “De mau gosto. Que mais se pode esperar de uma rapariga do campo…”

Alyona sentiu as bochechas arderem de vergonha e raiva.

“O que é que não gosta exatamente nisso?”, tentou ela objetar.

“Tudo, querida!” a mulher acenou com a mão cheia de anéis, em tom de desdém. “Todos estes enfeites… No meu tempo, as noivas escolhiam algo mais digno. Isto é uma espécie de fantasia cigana.”

Sasha estava sentado no sofá, absorto ao telemóvel, fingindo não ouvir nada.

“Sasha, gostaste do meu vestido?”, perguntou Alyona diretamente.

Ergueu os olhos, lançou um olhar rápido à mãe e depois a ela.

“Sim, está bem…” murmurou. “Desde que esteja confortável.”

“Alexander”, disse a mãe com rispidez, “não podes satisfazer todos os teus caprichos. A rapariga precisa de aprender o seu lugar. Um casamento é um assunto sério, não uma espécie de discoteca”.

“Mãe, vamos…” Sasha murmurou, mas não demonstrou qualquer coragem.

“Valentina Grigoryevna, já paraste para pensar que as pessoas podem ter gostos diferentes?”, perguntou Alyona em voz baixa.

A sua futura sogra olhou-a com um olhar frio.

“O bom gosto vem da educação, querida. E a educação… bem, percebes. De onde é que uma rapariga do campo, que provavelmente ontem estava a apanhar batatas, iria tirar isto?”

Essa foi a gota de água. Alyona levantou-se.

“Vou embora.”

“Lyona, espera”, disse finalmente Sasha. “Mãe, porque é que estás a agir assim?”

“O que é que eu disse?” Valentina Grigoryevna encolheu os ombros. “Apenas a verdade. Mais vale que ela entenda agora do que se envergonhe depois.”

Alyona não disse nada e saiu. O que poderia ela dizer? Que tinha estudado numa universidade de Moscovo durante quatro anos? Que trabalhava numa grande agência de publicidade? Que os seus pais a educaram bem? Tudo isto soaria como desculpas. E ela não tinha qualquer intenção de se justificar perante aquela mulher.

Nessa noite, a Sasha chegou com flores.

“Perdoe-a”, disse, beijando-a na testa. “Ela só está preocupada. Sabe, eu sou o único filho dela.”

“E a minha dignidade diz-lhe alguma coisa? Ou os caprichos da sua mãe são mais importantes?”

“Lyona, não faças dramas. O casamento é daqui a uma semana. Tudo vai acalmar. Ela vai habituar-se a ti.”

“E se ela não o fizer?”

Sasha abraçou-a com mais força.

“Ela vai. Ela não tem escolha. Tu és incrível.”

Mas Alyona já compreendia: num conflito entre a mãe e a mulher, Sasha escolheria sempre a neutralidade. Sorriria, mudaria de assunto, desejando que tudo se acalmasse.

No dia do seu casamento, em frente ao espelho, olhou para o seu reflexo e pensou: Será que há mesmo algo de errado com o vestido? Mas não — assentava-lhe perfeitamente, não era vulgar nem chamativo. A sua maquilhagem era discreta, o seu penteado elegante. Nem sinal daquele “estilo cigano”.

“Lyona, estás pronta?” A voz de Sasha vinha de trás da porta.

“Sim, já vou!”

A cerimónia no cartório passou rapidamente. Valentina Grigoryevna sentou-se na primeira fila, vestindo um elegante fato italiano azul-escuro — provavelmente custando mais de metade do salário de Alyona — e observou a cerimónia com total indiferença. Quando o casal foi instruído a beijar-se, ela começou dramaticamente a examinar as unhas.

“Mãe, estás a ser infantil”, sussurrou Sasha depois.

“Não percebo o que vê nela”, respondeu, no mesmo tom baixo. “Tão sem graça. Podias ter casado com a Liza Soboleva. O pai dela é general, estudou em Londres…”

“Mãe, eu adoro a Alyona.”

“O amor desvanece”, respondeu ela friamente. “Mas as crianças ficam. E que tipo de educação receberão desta saloia?”

Alyona estava por perto e ouviu tudo. Fingir que não ouvia era algo que ela já dominava há muito tempo.

O restaurante recebeu-os com música e flores. A mesa era sumptuosa — Valentina Grigoryevna insistira no menu mais caro, dando a entender que “a família precisava de ter um aspeto respeitável”. Alyona sabia que a conta estava a ser paga pelos pais e pelas poupanças de Sasha, mas não disse nada.

“Restaurante agradável”, disse a mãe de Alyona, olhando em redor do salão.

“Nada de especial”, disse a sogra, encolhendo os ombros. “Estive aqui recentemente para o casamento do filho da Marina Petrovna. Aquilo sim foi um evento! E a noiva… quanta graça, quanta elegância…”

“A nossa Alyona também é muito bem-educada”, disse a mãe de Alyona, com um sorriso forçado.

“Oh, claro”, Valentina Grigoryevna assentiu, mas o tom dizia claramente: O que sabe sobre boas maneiras?

Os primeiros brindes foram tradicionais. O pai de Alyona desejou felicidades ao casal, o tio de Sasha desejou-lhes uma longa vida. Alyona começou a relaxar um pouco e até sorriu quando a sua amiga de escola, Katya, contou uma história engraçada da sua juventude.

“Lembras-te, Lyona, de quando tu e o Dima passaram a noite a estudar para o teste de literatura e depois perderam a hora?” Katya riu-se.

“Lembro-me”, sorriu Alyona. “Ele não falou comigo durante duas semanas depois disso”.

“Onde está ele agora?”, perguntou alguém.

“Doutora, trabalha em São Petersburgo”, respondeu Katya.

“Interessante…” Valentina Grigoryevna disse arrastado, e Alyona soube — lá vem. “E o campo dele?”

“Filologia. Professor universitário.”

“Ah, a filologia!”, revirou a sogra. “E publicidade? Isso é só entretenimento”.

“Valentina Grigoryevna”, interrompeu o pai de Alyona, “a nossa filha é diretora de arte numa grande agência”.

“Diretora de arte!” exclamou a mulher teatralmente. “Tipo neta da Vera Mikhailovna. Também se intitula assim. Vive num apartamento de um quarto e ganha uma miséria. Mas soa bem — ‘diretora de arte’!”

Os convidados trocaram olhares inquietos. A tensão era palpável.

Então Valentina Grigoryevna pegou no microfone.

“Caros convidados”, começou ela com um sorriso de autossatisfação, “gostaria de dizer algumas palavras sobre a nossa noiva.”

Alyona sentiu um frio intenso dentro de si. Sasha sentou-se ao seu lado, com um sorriso forçado no rosto, sem fazer qualquer movimento para intervir.

“Claro, ela é jovem e tem muito para aprender”, continuou a mulher. “As raparigas modernas acham que a carreira é o mais importante. Mas uma mulher deve saber como criar um ambiente acolhedor, cozinhar, receber visitas…”

Pausa. Silêncio.

“Espero que o meu filho seja paciente. Reeducar um adulto é difícil, especialmente quando a educação original… deixa muito a desejar.”

A mãe de Alyona empalideceu. O seu pai cerrou os punhos.

“Mas nós vamos arranjar maneira”, continuou a mulher docemente. “Como sogra, vou ajudar a Alyona a dominar as artes femininas: cozinhar bem, receber com elegância, vestir-se com gosto…”

Os convidados remexiam-se nos seus assentos. Alguns desviaram o olhar.

“E agora o vestido”, acrescentou, com a voz melosa. “Vejam só! Estes folhos, estes folhos… Isto não é um vestido de noiva, é um disfarce de carnaval!”

Silêncio. Todos sabiam que algo estava errado, mas ninguém sabia como reagir.

“O que espera de uma rapariga do campo?”, acrescentou, aproximando-se de Alyona. “Provavelmente acham que isto é o auge da moda.”

Depois, estendeu a mão — com os dedos pegajosos dos aperitivos — e começou a puxar o tecido do vestido de Alyona.

“Um absurdo, descabido! Que raio de estilo é este para um casamento? Não é uma celebração, é um circo! E este decote… o que é que o meu filho está a pensar?”

Alyona ficou paralisada, sentindo centenas de olhares sobre si. A mulher estava de pé sobre ela, ainda a puxar o vestido, deixando marcas de gordura na seda branca.

“E o tecido!” gritou ela. “Sintético barato! Eu nunca usaria isto!”

Algo dentro de Alyona partiu-se.

Levantou-se bruscamente, agarrou a mulher pelos ombros e, antes que alguém pudesse reagir, enfiou-lhe o rosto no centro do bolo de casamento de três andares.

O salão ficou em silêncio. Valentina Grigoryevna levantou lentamente a cabeça, com creme, molho de frutos vermelhos e decorações de chocolate a escorrer-lhe pelo rosto. O microfone caiu no chão com um baque surdo.

– Estou cansada dos seus sermões – disse Alyona com calma e clareza. “E estou cansada de estar em silêncio.”

Ela pegou no microfone, limpou as migalhas e voltou a ligá-lo:

“Caros convidados! Este é o nosso dia e vamos celebrar! Músicos, toquem algo divertido!”

Virou-se e caminhou até ao centro do salão, dançando ao ritmo da música. O seu vestido — com os seus “vulgares” folhos — esvoaçava à sua volta, e havia algo de ousado, livre e belo nele.

“Lyona, tu arrasas!” gritou Katya, correndo para ela.

“Já não era sem tempo!”, acrescentou o irmão.

Um a um, os convidados foram-se juntando. Primeiro os mais novos, depois os pais, e depois todos. Em poucos minutos, todo o salão estava a dançar. Alyona estava no centro, rindo e gritando:

“Agora, uma competição! Quem dança melhor a lezginka?”

“Eu consigo!” gritou Artyom, amigo de Sasha.

“E quem quer cantar uma canção de amor?”

“Sim, fazemos!” gritaram as suas amigas.

O constrangimento dissipou-se. Os convidados perceberam: o tedioso espetáculo tinha terminado, a verdadeira festa tinha começado. Seguiram-se novos brindes — calorosos, sinceros, repletos de alegria.

“À noiva!” gritavam de todos os lados.

“À coragem!”

“Para uma mulher que se sabe defender!”

As pessoas comeram, beberam, riram, participaram em concursos. Umas contaram piadas, outras cantaram, outras simplesmente abraçaram-se.

“Lyona, vamos brincar ao ‘Adivinha a Música’!” sugeriu a tia Zina.

“Claro! Mas primeiro, todos têm de fazer o seu melhor brinde!”

Sasha abordou-a depois de uma das danças.

“Lyona…” começou, hesitante.

“O quê?”, encarou-o, desafiando-o a criticá-la.

“Nada”, sorriu. “Amo-te. E… desculpa-me por não a ter impedido antes.”

“Está tudo bem”, disse Alyona, pegando-lhe na mão. “Agora ela sabe com quem está a lidar.”

“E se ela nunca mais nos falar?”

“Ela vai. Mas agora será diferente.”

Valentina Grigoryevna saiu do restaurante antes do prato principal. Alyona mal se apercebeu — estava demasiado ocupada a celebrar e a organizar o próximo concurso.

“Onde está a tua mãe?”, perguntou alguém.

“Ela foi para casa”, respondeu Sasha, sucintamente.

“Que pena”, disse um dos convidados. “Ela está a perder a melhor parte.”

Mais tarde, nessa noite, quando o tio Vova, um pouco embriagado, tentou queixar-se de que “os jovens de hoje não têm maneiras”, foi rapidamente silenciado.

“Tio Vova, a sério?” – disse a prima de Alyona. “Ela fez a coisa certa!”

“E o vestido é lindo”, acrescentou uma vizinha. “Elegante. Os folhos estão na moda agora.”

“Não importa se está dentro ou não”, acrescentou o pai de Alyona. “Ninguém tem o direito de humilhar os outros.”

“Exatamente!” concordou o tio de Sasha. “Claro que as sogras também eram duras no nosso tempo, mas não assim. Não insultando a noiva em público!”

Chegaram a casa ao amanhecer — felizes, cansados, repletos de recordações.

“Aquele acabou por ser um bom casamento”, disse Sasha, desapertando a gravata.

“Sim”, Alyona sorriu, tirando cuidadosamente o vestido. “Principalmente o final.”

Um mês após o casamento, enquanto Alyona arrumava a casa, o telefone tocou inesperadamente.

“Olá?”

“Esta é a Valentina Grigoryevna. A Sasha está em casa?”

A voz dela estava diferente — menos confiante, mais neutra.

“Não, ele ainda está no trabalho.”

“Percebo. Diga-lhe que eu liguei.”

“Ok.”

Normalmente, a chamada teria terminado aí. Mas depois a senhora mais velha acrescentou:

“E… avisa-o que não irei no sábado. Tenho planos.”

Alyona compreendeu — era a primeira vez que Valentina Grigoryevna não fazia um comentário, dava um conselho ou proferia um insulto subtil. Ela estava a falar como igual.

“Certo, eu conto-lhe.”

“Obrigada”, disse a mulher, surpreendentemente em tom baixo, e desligou.

Nessa noite, Sasha chegou a casa e Alyona transmitiu a mensagem.

“Acho que ela ainda está perturbada.”

“Não. Ela está a pensar.”

“Sobre o quê?”

“O mundo mudou. E as noras já não são como antigamente.”

Valentina Grigoryevna deixou mesmo de vir. Ligava uma vez por semana, falava com o filho durante dez minutos, e só.

“Como estão as coisas?”

“Está bem. E você?”

“Igual. Vivo e de boa saúde.”

“A Alyona manda um oi.”

“Responda com um oi.”

Conversas curtas e objetivas. Sem julgamentos. Sem conselhos. Sem interferências.

Sasha tentou consertar as coisas.

“Deveríamos visitá-la? Convidá-la para vir aqui?”

Mas Alyona deteve-o.

“Não precisa. Deixe estar. A sua mãe e eu entendemo-nos agora.”

“Perceber o quê?”

“Ela sabe que não aceitarei humilhações em nome da paz. E sei que, por vezes, é preciso dar um passo ousado para mostrar quem realmente se é.”

Por vezes, Alyona lembrava-se daquele dia. De quanto tempo ficou em silêncio. De quanta dor reprimiu. De como foi assustador levantar-se — e de como se sentiu leve depois.

O casamento deles revelou-se sólido. Talvez porque, desde o início, Alyona mostrou que não seria uma esposa submissa, pronta para se curvar perante todos. Impôs-se — por si mesma, pela sua dignidade, pela sua felicidade.

“Sabes”, disse ela a Sasha no aniversário de um ano de casamento, “estou grata à tua mãe.”

“Para quê?”

“Por me ensinar a não ficar em silêncio. Nem todas as lições são agradáveis. Mas todas elas importam.”

Ela guardou o vestido de noiva. Por vezes, tirava-o do armário, olhava para as ligeiras manchas de bolo na barra e sorria. Eram as marcas da sua primeira verdadeira vitória. E mais ninguém se atreveu a chamar aqueles babados de “vulgares”.

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