Um encontro tranquilo que se tornou inacreditável — não vai acreditar no que a cria de veado fez.

Enquanto eu espalhava feno perto da vedação, dois veados saíram de trás das árvores. Mas, em vez de congelarem ou fugirem como costumam fazer, ficaram parados, a olhar fixamente. O maior permaneceu para trás, imóvel e atento. O menor? Fixou o olhar no meu. Sem piscar. Como se me reconhecesse .

Dei uma risadinha nervosa e tirei uma fotografia com o telemóvel. “Visitas inesperadas esta manhã”, brinquei numa publicação. Parecia inofensivo o suficiente.

Mas o que aconteceu a seguir ainda me incomoda.

O veado mais novo caminhou até à cerca — tão perto que consegui ouvir a sua respiração. Depois, sem hesitar, deixou cair algo aos meus pés: um pequeno embrulho, bem apertado num tecido escuro. Os seus movimentos eram intencionais. Deliberados demais. Demasiado humanos.

Eu paralisei.

Depois, lentamente, agachei-me e abri. Dentro do tecido estava uma caixa de madeira gasta, desbotada e arranhada pelo tempo. Quase ritualística. Dentro da caixa: um medalhão de prata. Pesado. Envelhecido. Gravado com símbolos que não reconhecia — símbolos que me causaram arrepios mesmo antes de o meu cérebro conseguir processar o porquê.

Quando olhei para cima, o veado tinha-se virado, recuando em direção à mata. Mas parou — à espera. Chamando-me. Eu segui-o.

Ao entrar na floresta, tudo pareceu silenciar. Nenhum pássaro. Nenhuma brisa. Apenas um silêncio denso e opressivo.

O caminho levava a uma clareira que nunca tinha visto. No centro, erguia-se um enorme e antigo carvalho. Retorcido. Imponente. Os seus ramos enegrecidos estendiam-se em direção ao céu. Os veados estavam debaixo dele, a observar-me… e depois desapareceram.

Na base do carvalho, reparei em terra remexida — recente. O meu pulso acelerou. Uma parte de mim gritava para dar meia-volta. Mas a curiosidade — ou algo mais forte — atraiu-me.

Cavei com cuidado.

Sob a terra havia uma lápide de pedra esculpida com aqueles mesmos símbolos misteriosos. Abaixo dela, escondido num espaço oco, estava um pergaminho selado com cera. Ainda intacto.

Eu rompi o selo.

Dizia:
“Ao escolhido: A verdade não é benevolente nem segura. Se a procuras, segue os sinais. Isto é apenas o início”.

Fiquei paralisada, com o crepúsculo a envolver-me. O medalhão parecia mais pesado no meu bolso. Não era coincidência.

O cervo. O presente. A mensagem. Tudo estava ligado — e era para mim .

A parte mais assustadora? Não sei quem me escolheu… nem porquê.

Quase não consegui dormir nessa noite. Os meus pensamentos giravam. Em que me tinha metido? Que verdade poderia ser tão perigosa ao ponto de precisar de ser enterrada — e protegida?

Na manhã seguinte, comecei a vasculhar os antigos registos da cidade. O que encontrei? Fiquei perplexo.

Existe uma lenda esquecida ligada a esta floresta — sobre uma sociedade secreta formada há séculos para guardar algo ancestral. Chamavam-lhe O Véu . Os símbolos? O emblema deles. Os veados? Os mensageiros. E o medalhão? Uma chave. A chave para algo que nunca deveria ter destrancado.

Não sei o que me espera. Mas sei que entrei em algo muito mais antigo — e muito mais sombrio — do que imaginava.

E alguém lá fora sabe que fui escolhido.

Nem sempre é a verdade que te assombra. Por vezes, é a consciência de que alguém queria que a encontrasse .

Tudo começou com um momento de silêncio. Uma escolha. Um veado.
Nem tudo o que se encontra na floresta é selvagem.
Nem tudo o que fica para trás é esquecido.

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