O dia 27 de janeiro de 2026 ficará para sempre marcado como um dos mais tristes na história do desporto português. Fernando Mamede, uma lenda viva do atletismo nacional, morreu aos 74 anos, deixando um legado imenso de conquistas, mas também um testemunho profundo sobre os desafios da saúde mental, que assombraram grande parte da sua vida.
Mamede, fundista do Sporting Clube de Portugal, tornou-se recordista mundial dos 10.000 metros, mantendo o título por cinco anos e inspirando uma geração inteira de atletas e fãs. Apesar das medalhas e do reconhecimento público, a medalha olímpica escapou-lhe em três ocasiões, com destaque para os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984, que descreveu como “o dia mais triste” da sua vida, um momento que nunca conseguiu superar completamente.
Por trás do sucesso, Fernando enfrentou silenciosamente problemas de saúde mental, numa época em que falar sobre psicologia no desporto era praticamente impossível. Mesmo com o apoio constante da esposa Alzira e da filha Patrícia, sentia-se sozinho nas suas lutas internas. Em entrevistas, recordava o vazio de apoio psicológico durante o auge da sua carreira, quando buscar ajuda era visto como sinal de fraqueza, e muitos colegas desvalorizavam quem procurava apoio.

A pressão por resultados impactou diretamente o seu desempenho, mas as dificuldades persistiram mesmo após encerrar a carreira. Em 2012, entrou numa depressão profunda, um período marcado por isolamento e resignação. Contou como deixava de sair de casa, evitava caminhadas e passava dias inteiros diante da televisão. O impacto afetou também Alzira, que entrou em depressão, abandonando hábitos simples como cozinhar, obrigando Mamede a assumir todas as tarefas domésticas, numa rotina limitada às idas ao supermercado.
Apesar de uma fase de recuperação, em 2023 sofreu uma recaída. Jorge Vieira, então presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, expressou preocupação com o estado de saúde do atleta, descrevendo uma situação de cronicidade, onde Fernando se tornava incontactável por longos períodos. O jornalista Luís Osório dedicou-lhe uma crónica sensível, retratando o isolamento do campeão, a sua relutância em sair e a convicção dolorosa de que seria lembrado pelos fracassos, uma percepção injusta diante da grandeza da sua carreira.
Durante toda a vida, Mamede contou com Alzira, a sua companheira de sempre, que o amparou incansavelmente. Ainda assim, os desafios constantes afetaram também a ela, mostrando que mesmo o apoio mais próximo não elimina o peso da depressão. Fernando Mamede parte como uma lenda do atletismo português, mas também como símbolo de uma geração de atletas que competiu sem rede de apoio psicológico, deixando um alerta poderoso sobre a importância de cuidar da saúde mental dentro e fora do desporto.